Ainda na tentativa de conceituar (conceptuar) o sujeito, analisaremos alguns outros aspectos.

Vimos, na parte 1 deste assunto, que, quando se trata de ações, ora prefere-se enfatizar o agente da ação, ora o ser que a sofre. No primeiro caso, o sujeito é o agente da ação (Roberta vende frutas); no segundo, o sujeito é o sofredor dessa ação (Frutas são vendidas. Vendem-se frutas).

No entanto, há casos em que não é possível reconhecer o agente da ação, ou o locutor não quer enfatizar quem sofre essa ação. Assim, a construção continua voz ativa, mas não se sabe ou não se quer dizer quem a pratica.

Observe:

Eita? Já comeram o bolo que eu tinha deixado na geladeira.

É importante notar que as construções são frutos das intenções dos falantes, consciente ou inconscientemente. 

Por exemplo, na construção acima […comeram o bolo…], o falante deseja enfatizar a ação em si, sendo possível entender que o discurso de reprovação seja mais pelo ato de se ter comido algo sem o consentimento do que ele [o falante] ter ficado sem o bolo. É possível entender que poderia ter sido qualquer coisa que ele tivesse deixado na geladeira, algo como “Já comeram isso… não se pode deixar nada na geladeira”

Se, por outro lado, o falante quisesse enfatizar o fato de o bolo ter sido comido (e não outra coisa que ele tivesse deixado na geladeira (chocolate, sorvete, geleia etc.)), é crível que a construção tivesse enfatizado mais o bolo, colocando-o como sujeito sofredor da ação, deixando a construção na voz passiva. Assim, é possível que tivéssemos construções como “Eita? O bolo que eu tinha deixado na geladeira já foi comido.” Ou, mais formalmente, “Comeu-se o bolo que eu tinha deixado na geladeira.”.

Mas… isso não é uma regra. É possível ainda que, mesmo com certa intenção, o falante construa frases em que não deixe clara a sua intenção, enfatizando um elemento que não queira e deixando de enfatizar um que queira. 

De qualquer modo, tudo isso tem a ver (e não: tem haver) com o fato de se determinar ou não o sujeito.

Observe:

  • O bolo foi comido. (sujeito determinado – o bolo)
  • Comeu-se o bolo. (sujeito determinado – o bolo)
  • Comeram o bolo. (sujeito indeterminado)

Nos dois primeiros casos, em que há sujeito explícito, há ênfase no fato de o bolo ter sido comido; no terceiro, há ênfase na ação de comerem o bolo. Já entra aqui caso de indeterminação do sujeito. 

Há dois casos específicos de indeterminação do sujeito.

Um deles ocorre quando o verbo (neste caso: comeram) se encontra na 3ª pessoa do plural e não se pode determinar a quem ele se refere.

A outra forma de indeterminar o sujeito é com o verbo na 3ª pessoa do singular unido à partícula “se”. Neste caso, será a partícula [se] chamada de índice de indeterminação do sujeito (IIS) ou partícula de indeterminação do sujeito (PIS).

Observe:

Precisa-se de bolos para aniversário.

Nessa construção, não se sabe determinar o agente da ação, tampouco (não confunda tampouco ‘também não’ com tão pouco ‘muito pouco’) o termo ‘de bolos para aniversário’ pode ser o sujeito, já que a construção não se encontra na voz passiva. Assim, não há sujeito determinado (nem ativo/agente nem passivo/paciente).

Como já dissemos na parte 1 deste assunto, AS CONSTRUÇÕES PASSIVAS SÓ SERÃO POSSÍVEIS SE O VERBO POSSUIR TRANSITIVIDADE DIRETA (ou seja, VTI ou VTDI), já que SOMENTE OBJETO DIRETO DA VOZ ATIVA PODE SER SUJEITO DA VOZ PASSIVA.

Logo, verbos intransitivos, transitivos indiretos e de ligação não admitem voz passiva e, se estiverem na 3ª pessoa do singular unidos à partícula “se”, o sujeito será indeterminado.

Destarte, em construções como

  • Ouviram gritos ontem à noite.
  • Sempre comem os bolos que deixo na geladeira.
  • Fazem fretes.
  • Consertam roupas.
  • Vivem bem nesta cidade.
  • Anunciaram a notícia na rádio.
  • Precisa-se de fretes.
  • Vive-se bem nesta cidade.
  • Era-se feliz aqui.

 temos casos de sujeito indeterminado, visto que os verbos ou estão na 3ª pessoa do plural sem sujeito explícito ou são: transitivo indireto [precisar], intransitivo [viver] e/ou de ligação [ser] na 3ª pessoa do singular com a partícula “se”, o que impossibilita a voz passiva e, consequentemente, a precisão do sujeito, enquanto em

  • Ouviram-se gritos ontem à noite.
  • Gritos foram ouvidos ontem à noite.
  • Fazem-se fretes.
  • Fretes são feitos.
  • Consertam-se roupas.
  • Roupas são consertadas.
  • Anunciou-se a notícia na rádio.
  • A notícia foi anunciada na rádio.

apresentam sujeitos determinados, concordando normalmente com o sujeito, pois os verbos com a partícula “se” são transitivos diretos. 

RESUMINDO:
Com VTI, VI ou VL, o SE é indeterminador do sujeito.
Com VTD ou VTDI, o SE é apassivador, transformando o objeto em sujeito.

Continua…

Abraço!